domingo, 18 de dezembro de 2011

A REVOLTA DA CHIBATA, 101 ANOS

No dia 22 de novembro de 1910, um marinheiro da tripulação do encouraçado Minas Gerais era duramente castigado, conforme praxe, na época. O castigo era de 250 chibatadas na presença, como de costume, de todos os outros marujos. O jovem marinheiro desmaiou, mas, mesmo assim, os açoites continuaram. Mas não seriam concluídos...

Desta vez, a indignação tomaria forma de revolta. A mão do agressor foi estancada no último golpe pelos marujos, até então, contemplativos daquele absurdo. O que se seguiu entraria para a história como o nome de “A Revolta da Chibata”.

Os revoltosos mataram o comandante do navio e mais cinco oficiais, que resistiram. Já na Baía de Guanabara, outros marujos assumiram o controle dos navios São Paulo, Bahia e Deodoro. Dois mil marinheiros aderiram à revolta.

Dois anos antes, o marinheiro de primeira classe, João Cândido aproveitando a oportunidade de uma viagem à Inglaterra, em serviço, participara de reuniões sindicais de marinheiros ingleses. Além disso, conheceu os fatos históricos do motim dos marinheiros do encouraçado Potemkin de 1905. Quando retornou, João Cândido trazia consigo a idéia de acabar com os maus-tratos na marinha brasileira.

Nascido em Rio Pardo no Rio Grande do Sul, em 24 de junho de 1880 filho de ex-escravos, João Cândido entrou para a corporação em 1894, aos 14 anos — época em que as Forças Armadas aceitavam menores e a Marinha, em particular, recrutava-os junto à polícia. Este não foi o caso de João Cândido. Recomendado por um almirante, que se tornara seu protetor, logo desponta como líder e interlocutor dos marujos junto aos oficiais.

Na manhã do dia 23 de novembro, sob a liderança de João Cândido Felisberto e com redação de Francisco Dias Martins, foi enviado um ultimato ao governo: Ou sediam às suas exigências (o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia para os amotinados) ou bombardeariam a cidade do Rio de Janeiro e as outras embarcações não rebeladas.

A Marinha, inicialmente, apostou na inabilidade de simples marinheiros para manobrar as modernas embarcações sem o conhecimento técnico que tinham os oficiais. Boquiabertos perceberam que os amotinados possuíam positivamente a perícia e a habilidade necessárias. Esboçaram, então, um ataque com dois navios menores que foram postos a correr pelos rebelados.

Alguns tiros de advertência passaram raspando pelo Palácio do Catete (sede do Poder Executivo) e o presidente, recém empossado, Hermes da Fonseca resolveu blefar e anunciou que aceitava todas as exigências.

Os marinheiros confiaram na palavra do presidente, mas depois de entregarem as armas e abandonarem os navios, foram presos.

Dezoito dos principais líderes dos marinheiros envolvidos na ação foram jogados numa solitária do Batalhão Naval, na Ilha das Cobras. Antes de encarcerá-los, o pequeno catre que os receberia é "desinfetado", jogando-se baldes de água com cal. Nos quentes dias de Dezembro, a água evapora e a cal começa a penetrar nos pulmões dos prisioneiros. Sob os gritos lancinantes de dor, as ordens são claras: a porta deve permanecer trancafiada. É aberta, ao que se sabe, apenas no dia 26 de Dezembro. Naquela sala de horrores, dos dezoito marinheiros ali trancafiados, dezesseis estão mortos, alguns já podres. João Cândido sobrevive. Apenas ele e um outro marinheiro saem vivos, ainda que muito mal, daquele desafio infernal.

Todavia, os 59 anos de vida que teria pela frente após estes momentos de glória e de terror seriam árduos. Banido da Marinha, com uma tuberculose que o acompanhou durante os seus oitenta e nove anos de vida, teve de lutar muito pela sobrevivência. Trabalhou fazendo bicos em navios de carga, que logo tratavam de despedi-lo se descobriam quem era. Ganhou por muito tempo a vida na estiva, descarregando peixes na Praça XV, no Rio de Janeiro. Mesmo velho, pobre e doente, permaneceu sempre sob as vistas da Polícia e do Exército, por ser considerado um "subversivo" e perigoso "agitador".

"Nós queríamos combater os maus-tratos, a má alimentação (...). E acabar com a chibata, o caso era só este" — declarou João Cândido, em 1968, em depoimento ao Museu de Imagem e do Som.

Apesar de traída e esmagada, a Revolta da Chibata provocou profundas modificações na Marinha Brasileira, e nunca mais, nenhum marinheiro sofreu castigos físicos e humilhantes.

Em 1973 Aldir Blanc e João Bosco fizeram uma música em homenagem a João Cândido, o Almirante Negro. Sem dúvida uma das mais belas letras da música brasileira, a canção sofreria forte censura, sendo liberada apenas com três modificações na letra original.

Abaixo temos essa magistral composição, que foi interpretada por João Bosco e Elis Regina, sem cortes:

Almirante Negro

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O Dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu.

Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala,
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas,
Jovens polacas e por batalhões de mulatas.

Rubras cascatas jorravam das costas
Dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação,
Que a exemplo do marinheiro gritava então

Glória aos piratas, às mulatas, às sereias,
Glória à farofa, à cachaça, às baleias,
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais.

Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais


Prof. Péricles
Agradecemos à colaboração do colega “musical” Eduardo Xavier

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