segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

O QUE ROUBAR NA PRÓXIMA INVASÃO

Michael Moore

Por Rui Martins

O maior crítico e inimigo da estrutura político-militar americana, o cineasta documentarista e escritor Michael Moore, estará em fevereiro no Festival de Cinema de Berlim, com seu novo filme Onde a Próxima Invasão?, já exibido no Festival de Toronto e com estréia nos EUA na véspera do Natal.


Desta vez, o sistema americano quer limitar a penetração do filme entre os jovens, classificando-o como permitido apenas a maiores de 17 anos, alegando algumas cenas de drogas e uns nus naturistas, mas na verdade criando uma nova categoria – a da pornografia política.


Para Michael Moore, os EUA são um país belicoso em permanente estado de guerra, principal responsável pela situação atual no Oriente Médio, decorrente da invasão do Iraque, justificada com mentiras.


Natural, por isso, se esperar uma nova invasão para acionar a indústria armamentista americana e se apropriar de alguma riqueza.


Entretanto, o objetivo desta nova invasão não seria para se apossar do petróleo de algum país, porém – e aqui entra a ironia do gordão provocador Moore – das idéias e soluções político-sociais encontradas por outros países e superiores às aplicadas pelo liberalismo capitalista dentro dos Estados Unidos.


Entre elas estão o sistema de saúde e previdenciário dos franceses ; a política de legalização de certas drogas pelos portugueses ; o comportamento natural de muitos europeus com relação aos seus corpos nos campos naturistas de nudismo ; as merendas escolares nas escolas francesas ; as longas férias concedidas aos operários italianos ; o melhor sistema educacional dos finlandeses ; e a maneira como foram processados e presos os banqueiros islandeses envolvidos na falência do país.


Por que não roubar tudo isso desses países e fincar uma bandeirinha americana no lugar?


O sucesso de “Onde a Próxima Invasão?” vai depender da dose de humor aplicada por Michael Moore, já premiado com Palma de Ouro em Cannes e com Oscars nos Estados.


Seus filmes mais conhecidos – Tiros em Columbine e Fahrenheit 9/11.




Rui Martins, estará em Berlim, do 10 ao 21 de fevereiro, convidado pelo 66. Festival Internacional de Cinema.

sábado, 19 de dezembro de 2015

UM EGÍPCIO PERIGOSO

Simon Metz o mais famoso micro-encefálico
Ele não é cidadão brasileiro, embora a maioria dos brasileiros pensem o contrário.

Faz parte do pacote de tragédias que o país paga pela grande desgraça da escravidão, já que chegou aqui junto com os escravos, em navios negreiros, em algum momento dos anos 1500.

Na verdade, ele é egípcio, mas sem o charme e o interesse das grandes realizações desse país, numa passado distante.

O Aedes aegypti é um dos mosquitos mais fatais e temidos do mundo, transmissor de doenças como a dengue, a febre amarela, a febre chikungunya e o vírus zika.

Em paralelo, aparentemente responsável pelo crescimento de má formação dos bebês, com a microcefalia, provocada pelo vírus zika.

Permaneceu discreto e matando em silêncio até ser descoberto em 1762 e reconhecido como um inimigo mortal em 1818.

Acredita-se que na grande campanha contra a febre amarela, no início do século XX, ele tenha sido derrotado e erradicado do país, com o uso decisivo de inseticidas químicos.

Mas, ele voltou.

Foi novamente identificado nos anos 80, numa nova leva originária, provavelmente, de Cingapura.

Porém, dessa vez o buraco é mais em baixo.

O inimigo ao longo das gerações posteriores às da febre amarela, e pelo uso indiscriminado de nossa parte de produtos químicos, criou resistência aos inseticidas químicos.

Se borrifar na cara dele, ele come como sobremesa.

Ele pediu revanche, e parece que, dessa vez, veio preparado para nos derrotar.

Segundo o Levantamento Rápido de Índices para Aedes aegypti (LIRAa), que se baseia em dados dos meses de outubro e novembro de 2015 e acumula informações de 1.792 cidades, um total de 199 municípios brasileiros estão em situação de risco de surto de dengue, chikungunya e vírus zika devido à presença significativa do Aedes aegypti.

A classificação, feita com base em dados reunidos pelo Ministério da Saúde, leva em conta o fato de que em mais de 4% das casas visitadas nesses locais foram encontradas larvas do mosquito.

O Ministério da Saúde identificou ainda, um primo próximo do aegypti, muito perigoso, o aedes albocictus, que também transmite a chikungunya e o vírus zika.

Portanto, além de querer vingança, o danado ainda trouxe reforços da própria família.

A luta, parece, está apenas começando.

Mas uma vez o Brasil se vê às voltas com uma doença típica da falta de educação que nega ao seu próprio povo, pois, assim como outras doenças propagadas pelos mosquitos, é a falta de cuidados e de higiene o maior responsável pela multiplicação dos casos das doenças.

Água parada e suja (água corrente ou limpa o egípcio detesta) deve ser evitada a todo custo.

Cuidados com o lixo e o descarte do que já não será mais útil, porém serve de berçário às larvas do mosquito, como pneus velhos, garrafas, etc., são fundamentais.

São coisas aparentemente simples, mas distantes do policiamento do estado e que exigem a participação da cidadania.

É possível vencer a ameaça, não com o uso de armas poderosas como os inseticidas químicos, mas através de um processo muito mais humano, definitivo e sem contraindicações: a educação.


Prof. Péricles





sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O REI BONZINHO E A MULHERADA DO MAL





Pálido, suando embaixo de seu turbante, o Grã-Mufti (autoridade religiosa máxima) bradou “é como abrir as portas ao mal”.

O religioso se referia às eleições para conselhos locais, realizados no sábado (12/12), e que, pela primeira vez contou com o voto e a candidatura de mulheres.

Na Arábia Saudita as mulheres não podem dirigir, e o “guardião” de uma mulher, que pode ser o pai, o marido, irmão ou mesmo o filho, pode impedi-la de viajar para o exterior, se casar, trabalhar, estudar e fazer certas cirurgias estéticas.

Aliás, foi com extrema irritação que as autoridades do país reconheceram, recentemente, um fenômeno noturno: o grande número de mulheres que dirigiam (um crime) automóveis durante a madrugada, indo para lugar nenhum, apenas, para satisfazer o desejo de motorista.

A Arábia Saudita é o maior produtor de petróleo do mundo. Terra em que nasceu e viveu o profeta Maomé e onde está a cidade sagrada de Meca. É governada pela família real Al Saud como uma monarquia de forte conotação absolutista.

A democracia não tem permissão para existir e os direitos humanos são rotineiramente desprezados, mas, ao contrário de outros governos locais que foram atacados pelos defensores da liberdade, OTAN/Estados Unidos, a família Saud dorme em berço esplêndido, dá as cartas e joga de mão, já que é a maior aliada dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Seu governo é constantemente apontado pelos palestinos e iranianos como responsável pela desunião de seus povos na região, e, inclusive, de apoio a Israel nos intermináveis conflitos militares.

As eleições de sábado, com a participação feminina, ocorreram por vontade e “bondade” do rei Abdullah que as anunciara em 2011, e aconteceram mesmo com a morte do rei em janeiro desse ano (2015).

Além das mulheres poderem votar a magnificência do rei Abdullah ainda incentivou para que mais algumas vagas nas universidades sejam abertas para as mulheres, tadinhas.

Embora a mulherada tenha participado com grande afinco nas eleições (e isso é mais do que compreensível) elas foram muito chatas. Isso porque não existem partidos políticos no país (o rei é o partido único) e as leis impedem debates públicos sobre política e restringem importantes temas locais de interesse da população.

Dá para entender porque apenas 1,48 milhão dos 20 milhões de sauditas se registraram para votar nesta eleição, incluindo 131 mil mulheres.

Na terra do petróleo que enriquece meia dúzia de famílias, mas que mantém na miséria grande parte da população, não se discute política nas ruas nem se estuda nas escolas.

E agradeça a Alá que elas existam além, claro, da clemência e modernidade de seu rei, o amigo número um dos Estados Unidos.



Prof. Péricles

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A FOME COM A VONTADE DE COMER DEMAIS


No mundo existem 7 bilhões de pessoas.
Mais da metade, 4 bilhões, possuem problemas alimentares.
Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 2 bilhões são subnutridas devido a pobreza, enquanto outros 2 bilhões são obesos devido ao pouco saudável estilo de vida que levam.
Milhões morrem anualmente de fome.
Estima-se que 2,5 milhões de pessoas morreram no último ano vítimas dos efeitos da obesidade. Geralmente os piores efeitos são doenças cardiovasculares, diabetes e diversos tipos de câncer.
A OMS anda firmando convicção que a obesidade anda matando mais do que a fome.
Atualmente, países como o Brasil, México e China, conseguiram reduções importantes no mapa da fome, mas, ao mesmo tempo, houve um aumento do número de pessoas obesas.
Já nos países ricos a fome não é problema de massas, mas, é justamente nesses países que se registra maior a presença da obesidade mórbida
De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde, um terço da população dos EUA, por exemplo, está extremamente acima do peso. Na Europa, dependendo do país, essa proporção é de um quinto ou um quarto.
Enquanto a fome é uma característica da pobreza, a obesidade é consequência da pobreza do nível educacional para a alimentação.
Ao mesmo tempo que a obesidade se destaca na paisagem humana a fome em sua face não percebida, a “fome crônica” quando as pessoas se acostumam com a deficiência alimentar e disfarçam seus efeitos nutrindo-se de paliativos (como o pirão nordestino), permanece oculta e silenciosa.
Thomas Malthus (1766-1834), economista britânico que anunciou a teoria de um futuro sombrio quando o planeta não conseguiria alimentar a população sempre crescente deve estar se revirando na sepultura.
Afinal, os números mostram que, a causa da fome não é a insuficiente produção planetária, mas sim, a desigualdade social, a miséria e a ignorância, em todos os seus níveis.

Prof. Péricles





segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

ARACNE, FHC E A INVEJA


Ninguém propala sua inveja em relação a outro aos quatro cantos.

Ao contrário, com exceção dos ataques agudos de inveja, o invejoso disfarça como pode, pois, teme que sua inveja sirva como um atestado de inferioridade.

Por isso, o invejoso nega sua própria inveja.

Mas, algumas invejas são tão intensas que nem o porão mais escondido na alma consegue disfarçar.

É o caso da deusa Atena em relação à Aracne.

Aracne era uma tecelã talentosa. Todos admiravam sua habilidade.

Fiava com mãos mágicas e os elogios que recebia eram sempre intensos e verdadeiros.

Certo dia, ao buscar sua encomenda, um rico homem de negócios de passagem por aquelas bandas ficou tão encantado com o trabalho de Aracne que comentou “só Atena seria capaz de criar algo mais bonito que isso”.

Sabe como são as tecelãs... Aracne ficou indignada com a observação e disse que se pudesse desafiava Atena para um duelo de tecelagem para ver mesmo, ora bolas, quem era a melhor. 

Todos tentaram tirar isso da cabeça da guria, pois, as deusas gregas eram conhecidas pela sua irritabilidade e falta de espírito esportivo, quando perdiam, claro.

Mas, as palavras chegaram aos ouvidos da poderosa deusa que de repente, apareceu trazendo consigo dois teares para enfrentar o desafio.

Amigos de Aracne suaram frio, pois sabiam que aquilo não iria terminar bem. Mas Aracne, com a confiança que só a vaidade dá, permaneceu desafiadora.

As duas começaram a trabalhar dando o máximo possível no que faziam.

Muitas horas depois Atena olhou o que a rival fazia e teve que reconhecer que o talento da mortal era extraordinário e maior que o seu.

Mas, bem capaz que Atena aceitaria sair daquilo derrotada.

Mulheres... ou melhor, Deusas...

Bem, a esperta divindade passou a bajular a rival. Reconheceu que ela até tecia bem e poderia vir a ser muito boa mesmo.

“Amiga, tenho uma proposta pra te fazer”.

E propôs que as duas acabassem agora o desafio já que ela, Atena, era uma deusa muito ocupada e tinha compromissos urgentes no Olimpo, mas, que se a moça aceitasse deixar pra lá, no zero a zero, ela a transformaria na maior tecelã de todos os tempos, e que seria incomparável a qualquer outra.

Aracne, ingênua, aceitou e a temida deusa a transformou numa aranha (de onde vem aracnídeo).

É o caso também de FHC.

FHC que no tempo da ditadura era considerado uma estrela da esquerda, lá no conforto distante das lutas, e que sempre foi reconhecido como um intelectual, governou o Brasil por oito anos.

Seu governo foi frágil.

Seguindo a receita neoliberal, privatizou empresas públicas, e privatizou mal, sem nenhuma vantagem concreta ao país.

A inflação chegou a 70%, os salários congelaram (dos funcionários públicos literalmente congelaram) e a distância entre ricos e pobres só aumentou, como sabemos ser consequência das políticas neoliberais.

Não se criou nenhuma faculdade, nenhuma reforma estrutural no país em nenhum setor estratégico.

O pobre continuou pobre, e até mais pobre e essa população não guarda nenhuma saudade do “príncipe dos sociólogos”.

Quem elogia FHC e acredita nas suas explicações são seus correligionários e a mídia, mas FHC é vaidoso. O que ele queria mesmo era a admiração do povo.

Lula tem apenas o ensino fundamental.

Líder sindical sempre foi desdenhado por supostos erros de concordância e completa falta de lustro intelectual.

Lula também ficou oito anos no governo, mas, nesses oito anos promoveu políticas sociais de intensa repercussão entre os mais pobres.

O Fome Zero, o Bolsa Família, Luz Para Todos e os programas na área de ensino fazem de Lula um ídolo entre os miseráveis até de fora do Brasil.

FHC como bom invejoso não fala isso, nem jamais falará, mas lá dentro, caramba como deve doer a inveja!

Ele sabe quais serão os comentários nos livros futuros de história quando a mídia amiga não mais poder defende-lo. Sabe que, inevitavelmente os dois governos serão comparados. Ele sabe, e isso dói no intelectual vaidoso, mais até do que no político.

Se pudesse, ele faria como Atena, proporia pra Lula deixar pra lá as disputas e se tivesse poderes da grande deusa, transformaria Lula num sapo barbudo.

Mas, não pode.

Por isso, silenciosamente, está por trás de toda a sanha golpista dos últimos meses.

Não é por ideologia ou por motivos conceituais.

Porque assim como Atena, FHC também não sabe perder.

Pura inveja.



Prof. Péricles 

sábado, 12 de dezembro de 2015

ORFEU, NÃO OLHE PARA TRÁS

Orfeu e Eurídice



Era uma vez um jovem chamado Orfeu.

Filho da musa Calíope, inspiradora dos poetas e do rei Eagro da Trácia, numa versão, ou, do próprio deus Apolo, em outra versão.

Era músico e o maior e mais inspirado poeta que o mundo já conheceu.

Sua arte era tão poderosa que, foi capaz de silenciar as sereias usando apenas o seu próprio canto.


Diziam que quando Orfeu tocava sua lira, que ganhou de Apolo, silenciava até o murmúrio dos ventos, das águas e o canto dos pássaros.

Já Eurídice era uma ninfa. Linda. Maravilhosa. Quando era vista, nua ou quase nua por algum mortal, embasbacava o pobre coitado.

Era desejada por deuses e criaturas mágicas. Por homens e mulheres.

Orfeu conheceu e se apaixonou profundamente por Eurídice.

Por sua vez, Eurídice se apaixonou por aquele artista maravilhoso.

A relação entre eles era harmoniosa e sob a inspiração do poeta e de sua música faziam amor nos campos sem fim do mundo mitológico grego.

Himeneu, o deus das paixões e dos matrimônios abençoou os dois quando resolveram casar.

Porém, a tragédia iria se abater sobre o casal apaixonado.

Na véspera do casamento, outro filho de Apolo, Aristeu, tentou seduzir Eurídice.

Tentando fugir de suas armadilhas inconvenientes, a ninfa acabou pisando numa serpente venenosa que a picou, provocando sua morte.

Orfeu enlouqueceu de dor.

Sua poesia calou, seus dias escureceram e tudo em sua volta ficou mais triste.

Inconformado e cego de dor, levando apenas sua Lira, empreendeu uma perigosíssima viagem ao Mundo dos Mortos para trazer de volta sua amada.

Movido pelo amor e transtornado pela dor percorreu vales sombrios e campos inteiros sem nenhum sinal de vida.

Não havia flores e frutos nas árvores, nem peixes nos rios.

Mas, Orfeu não recuou obcecado para rever a mulher da sua vida, dona de seu coração.

Na solidão do mundo dos mortos Orfeu toca sua Lira e canta para espantar a dor.

E é seu canto mavioso que amolece o mais duro dos corações, o coração de Caronte, barqueiro condutor das almas pelo rio Estige, que a princípio negava-se a transportar vivos no reino dos mortos.

O som de sua Lira faz dormir Cérbero, o terrível cão de três cabeças que guardava os portões do reino dos mortos.

Além disso, enquanto avança, o som de sua música maravilhosa aliviava os tormentos e angústias das almas condenadas ao sofrimento.

E, finalmente, Orfeu se vê diante do trono de Hades, o deus dos mortos, tendo ao lado sua esposa, Perséfone.

O poeta não resiste ao acúmulo de suas dores e chora como criança pedindo clemência à Hades para que possa levar Eurídice para o reino dos vivos. Seu choro é pungente, vindo do fundo do coração e comove a todos em sua volta, menos a Hades.

Porém, Perséfone, sensibilizada, implora ao marido que dê uma chance a Orfeu.

O senhor dos mortos acaba cedendo, Eurídice poderia voltar com Orfeu ao mundo dos vivos, mas impõem uma condição: Orfeu não pode olhar pra sua amada até que a luz do sol atinja os dois.

Eufórico Orfeu agradece muito à Perséfone e parte de volta para casa. Vai na frente segurando Eurídice pela mão e sem voltar o rosto. Toca músicas de alegria, numa verdadeira euforia contagiante. Nunca o mundo dos mortos viveu momentos tão alegres.

Algum tempo depois, perto da saída, ocorre o que não poderia ocorrer.

Segundo alguns por não aguentar as saudades, por outros, pelo medo de ter sido enganado por Hades, não se sabe bem, mas a verdade é que Orfeu vira-se para olhar Eurídice.

Por alguns instantes ele a vê, mas em seguida sua imagem começa a desaparecer lentamente.

Ambos choram, Orfeu caí de joelhos, mas o desaparecimento não cessa e em pouco tempo ele se vê sozinho novamente, segurando sua lira e não contendo a dor em seu coração.

A triste história de Orfeu e Eurídice nos lembra de que tudo começa com um desejo, mas que todo desejo possuí suas condições, seus limites, facilmente ultrapassados pela nossa invigilância e impulsividade.

Muitas vezes o que mais ansiamos é ter uma nova oportunidade, mas, geralmente, não estamos preparados para ela, pois mantemos os hábitos mais antigos.

Temos que confiar que seguindo o caminho encontraremos as respostas que amenizem nossas dores apenas quando atingirmos a luz do sol da consciência.

Devemos confiar mais no futuro e não olhando para trás, para o que já passou.

O futuro, sem dúvida é mais radioso e iluminado, é só acreditar.

Quanto a Orfeu, diziam os gregos nas conversas de fim de noite, nunca mais recuperou a paz e a felicidade, tornando-se um artista preso à sua dor e a seu arrependimento.

Sua arte ficou triste, seu semblante nunca mais recuperou o brilho.

Passou a aconselhar as pessoas, especialmente nos assuntos de amor e isso deu origem à expressão “orfismo”, uma ação em que o conselheiro resolve os problemas de todos, menos os seus.

Orfeu nunca mais quis saber de outra mulher, embora fosse constantemente assediado, especialmente pelas Mênades (furiosas) que eram mulheres adoradoras do culto a Dionísio.

Lascivas, incoerentes, perigosas, faziam o sexo mais enlouquecido e descompromissado que se possa imaginar. Sedução, embriaguez, violência, ligadas as forças mais primitivas da natureza, as tornavam temidas até pelos deuses.

Desprezadas, coisa que não podiam suportar, faz Mênades, acabaram num surto de desejo reprimido, num contraste de amor e ódio, matando Orfeu.

As nove musas, incluindo sua mãe, Calíope, sepultaram seu corpo no Monte Olimpo.

As assassinas foram punidas sendo transformadas em silenciosos carvalhos.

Não há lágrimas para esse final, pois, segundo os gregos, finalmente, no mundo dos mortos, Orfeu e Eurídice puderam se reencontrar, que era o que mais queriam.




Prof. Péricles