quinta-feira, 20 de abril de 2017

O FIM DE UM CASAMENTO DE CONVENIÊNCIA



Londres iniciou no dia 05 desse mês o processo de ruptura com a União Europeia que colocará fim a mais de quatro décadas de um casamento dominado pelas questões econômicas.

"Desde 1973, foi uma relação utilitarista com o foco voltado para a dimensão econômica", disse Pauline Schnapper, professora de estudos da civilização britânica na Universidade de Sorbonne de Paris. "A dimensão sentimental foi quase inexistente", acrescentou, em declarações à AFP.

"Foi uma relação transacional", estimou, na mesma linha, Anand Menon, professor britânico de política europeia do King's College de Londres. "Consequentemente, o divórcio é bastante lógico".

O Reino Unido não quis se somar inicialmente ao projeto europeu, concebido após a Segunda Guerra Mundial em um espírito de reconciliação.

"Não nos sentíamos vulneráveis o bastante para nos somarmos", resumiu Menon. No fim, os britânicos ganharam a guerra, e se sentiam fortes com sua relação especial com os Estados Unidos e com o que restava de seu império.

Isso não significa que se opusessem ao projeto, lembrou John Springford, diretor de pesquisas do Centro para a Reforma Europeia, de Londres. Como prova disso há o discurso que Winston Churchill pronunciou em 1946, em Zurique, convocando a criação dos "Estados Unidos da Europa".

No início de 1960, a situação mudou: o crescimento econômico britânico estava abaixo do registrado por seus vizinhos franceses e alemães e o mercado comum se tornou mais atrativo.

Mas a adesão do Reino Unido não foi fácil. Sua primeira candidatura, em 1961, se deparou com o veto do presidente francês Charles de Gaulle, que via nos britânicos um Cavalo de Troia americano e questionava seu espírito europeu.

Depois de outro veto de De Gaulle, em 1967, o Reino Unido finalmente entrou na Comunidade Econômica Europeia em 1973. No entanto, a entrada coincidiu com o impacto da primeira crise do petróleo, e o impulso econômico esperado não ocorreu.

Em 1975, apenas dois anos depois de sua entrada, os britânicos celebraram o primeiro referendo sobre a Comunidade Econômica Europeia, no qual a permanência se impôs com um apoio de 67%.

Este resultado não acabou com as reticências, e é difícil lembrar algum político britânico que tenha defendido entusiasticamente os benefícios da adesão, além, talvez, de Tony Blair.

"Entrar tarde reforçou a sensação de mal-estar (...) de que havíamos nos unido a um clube moldado por outros", explicou Menon.

A primeira crise não demorou a aparecer. Em 1979, Londres se negou a participar do sistema monetário europeu em nome da soberania nacional e monetária.

E também se opôs a qualquer iniciativa para fortalecer a integração política, reforçando a impressão de que Londres tinha um pé dentro e um pé fora. Em 1985, também se negou a participar de Schengen – desaparecimento dos controles fronteiriços – e em 1993 do euro.

As reticências se cristalizaram no discurso de Margaret Thatcher de 1988 no qual ela rejeitou a ideia "de um superestado europeu".

Quatro anos antes, a líder conservadora havia obtido finalmente uma diminuição da contribuição britânica ao orçamento da UE ao famoso grito de "Devolvam meu dinheiro".

A desconfiança em relação a Bruxelas se acentuou em meados dos anos 90, com a criação do Ukip, o Partido para a Independência do Reino Unido, que defendia a saída da UE.

Seu êxito eleitoral, particularmente nas eleições europeias de 2014, levou o Partido Conservador, que já tinha seu próprio setor eurocético, a endurecer seu discurso.

A crise na Eurozona e a imigração europeia – que contribuiu para o crescimento do Reino Unido, lembrou Schnapper – radicalizaram o debate, levando o primeiro-ministro, David Cameron, a convocar o referendo de 23 de junho de 2016 que colocou o último prego no caixão de uma relação de conveniência.



Por Ouerdya Ait Abdelmalek


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