quarta-feira, 20 de setembro de 2017

O MP VAI NOS SALVAR DA PEDOFILIA


É curioso.


Quando, nos anos 80 e 90, gente de esquerda, essencialmente, criticava a erotização precoce e a violência nos programas de TV infantis, nas roupinhas fetichistas da Xuxa, nos concursos de “boquinha da garrafa” para crianças do Raul Gil, era chamada de “careta”, stalinista, retrógrado e que quem determinava o topo de programas a ser exibidos era “o gosto do público”, porque o Ibope era a bíblia e as vontade das emissoras, especialmente a Globo, era a lei.


E ainda são.


Agora, depois do ataque dos imbecilóides do MBL à exposição de Porto Alegre, aparecem os “kim concursados”.


Diante do fato de que o promotor de da Infância e da Juventude de Porto Alegre Júlio Almeida, dizer que não há casos de crime de pedofilia na mostra, dois promotores criminais gaúchos, Alexandre Lipp e Sílvio Munhoz, resolveram fazer uma “missão extraoficial” sobre a exposição, para divulgarem uma nota dizendo que ela possuía “o nítido propósito de erotizar o público alvo e induzi-lo a tolerar condutas como orgias, zoofilia e vilipêndio a símbolos religiosos” :


“O evento tinha como finalidade a doutrinação amoral do público infanto-juvenil, e os pais que agora tomaram conhecimento disso podem procurar o Ministério Público para a adoção de providências, sobretudo se descobrirem que os filhos participaram de alguma dinâmica sensorial sugerida no evento, o que pode caracterizar crime contra a dignidade sexual.”


Só mesmo na mente de um tarado pode passar a ideia de que professores, em concluio com o Santander e os artistas que participam da mostra, uniram-se para formar, desde a mais tenra idade, uma geração de pedófilos, zoófilos, orgiásticos e vilipendiadores de ícones religiosos.


Quem sabe não prefiram a solução mais simples da “fera de Deodoro”, sugerindo logo “fuzilar” os responsáveis pela exposição? E levar as criancinhas para ver como se deve tratar quem pensa diferente? E castigar, a fio de ferro e a tosa de cabelo à força, os que acharem que isso é fascismo?


Estou preocupado em ter feito meu filho de 12 anos “a tolerar condutas” dos outros, mesmo aquelas com que não concorde, desde que isso não interfira na maneira em que escolheu viver. Será que mereço um indiciamento criminal, doutores?


Soltaram as feras e já começam a ser tragados por ela, O jornalista e blogueiro gaúcho Políbio Braga, um dos maiores incentivadores desta “caça às bruxas” sexual acaba de ser condenado a pagar R$ 24 mil a dois promotores de Novo Hamburgo, sobre os quais levantou suspeitas de terem feito escutas e negócios.


Cria Cuervos, não é?


PS. A propósito, na minha infância não tinha exposição fechada, mas tinha revistinhas do Carlos Zéfiro correndo escondidas de mão em mão no fundo da sala, cinema “poeira” para entrar com carteirinha falsificada e ver os seios da Florinda Bolkan, e até anúncio pedófilo exibido nas revistas e farmácias, como este famoso no mundo inteiro, de bronzeador, que vinha desde os anos 50 e que reproduzo acima.




Por Fernando Brito

domingo, 17 de setembro de 2017

PELO MENOS TIRAMOS O PT


“Pelo menos tiramos o PT”.


Para grande parcela da população brasileira, esse é seu mais valioso mantra.


Repetem com facilidade a frase que tenta justificar seus erros ou ratificar suas convicções que ameaçam ruir a cada novo escândalo que envolve seus heróis de pés de barro.


Para muitos, tirar o PT do poder era o objetivo mais importante e inegociável da vida.


Incompreensível é que esse objetivo tenha suas bases não na análise e perspectiva sobre o que fizeram ou deixaram de fazer os governos petistas, mas no sentimento irracional de anti-esquerda.


Lula tornou-se para essas pessoas o ícone do PT e o PT o ícone da esquerda.


Tirar Lula/Dilma do Poder era tirar o PT, consequentemente, tirar a esquerda do poder mesmo tendo sido esse poder conquistado nas urnas.


Para essa gente deve-se defender democracia (isso é, tirar o PT) mesmo com ações antidemocráticas.


Assim agiram movidos pelo antismo, e esse antismo é basicamente cultural e não político pois não resiste ao mínimo debate racional.


A anti-esquerda cresceu no Brasil com o fermento do ódio anticomunista, criado pela direita mais retrógrada que, para justificar seus golpes, jamais teve moralismos em qualificar seus adversários como comunistas, mesmo sabidamente não sendo.


Getúlio Vargas foi acusado de comunismo, mesmo tendo sido o governante que fechou a Aliança Nacional Libertadora, baniu o PCB e prendeu suas lideranças, inclusive Luís Carlos Prestes. Vargas não teve pudores nem para entregar numa bandeja à Gestapo, para ser morta, Olga Benário, agente comunista internacional e mulher de Prestes.


Da mesma forma João Goulart, fazendeiro gaúcho e discípulo de Vargas, foi taxado de comunista para ser apeado do poder. Suas propostas de reformas do sistema de ensino, planejamento urbano e agrário foram rotuladas de propostas comunistas e contra elas se organizaram marchas da Família com Deus e pela Liberdade.


No Brasil, a elite esperta sempre usou o preconceito para dirigir a classe média burra.


Dessa forma, se Lula é PT, o PT é esquerda e esquerda é comunista, o que vale é tirar o PT do poder, perseguir e aniquilar a figura de Lula para fazer sangrar a esquerda brasileira.


Pior ainda é que esse anticomunismo virulento e radical não nasce do debate ideológico e da defesa das coisas boas do capitalismo contra os erros do comunismo real, mas do medo de ver os mais “miseráveis” ascender à patamares sociais (que julgam ser a bandeira da esquerda) vedados aos “miseráveis”.


Hoje, o mantra se repete entre uma população mais ou menos arrependida.


Diante das barbaridades cometidas e anunciadas pelo governo Temer, parte da população antista começa a perceber que caiu numa armadilha, mas, para justificar seus erros repete que “o importante foi tirar o PT”.


Não entende essa parcela da população que tirar o PT do poder em cima de uma conspiração da mídia e do judiciário foi fácil, difícil será pagar o preço. E o preço é a desnacionalização do país com à venda do seu patrimônio em leilão, pago em suaves prestações.


O preço poderá será a perda de seus direitos trabalhistas e previdenciários.


Perdemos, mas, o importante foi tirar o PT.


Tirar o governo mais pacífico da história, incapaz de qualquer ato de força e persuasão foi mais fácil que tirar um Brizola (também rotulado de comunista) capaz de botar fogo no circo. Difícil é reconhecer que junto tirou a esperança de milhões de brasileiros que ousaram sonhar.


Junto com tirar uma presidente legitimamente eleita do poder, sem cometimento de qualquer ilícito, tirou-se também o Brasil do clube dos países modernos e em desenvolvimento, respeitado lá fora como nunca fora antes em sua história.


“Pelo menos tiramos o PT”, mais do que um mantra, ameaça se tornar, num futuro imediato, o título do mais triste e bizarro capítulo da história brasileira.



Prof. Péricles

sábado, 16 de setembro de 2017

NÓS GÓRDIOS


O Brasil está amarrado a quatro nós górdios que ninguém conseguiu ainda desatá-los e assim libertá-lo para se auto-construir como país soberano e livre.

O nó górdio vem de uma lenda da mais longínqua província romana, a Frígia, para onde eram levados condenados políticos sediciosos e na era cristã, os herejes. Era uma espécie de Sibéria, lugar de punição a opositores ou defensores de doutrinas heterodoxas.

A lenda diz que tendo ficado vacante o trono, foi escolhido como rei um camponês de nome Górdio. Veio com seu carro de bois. E para honrar Zeus e mostrar a humildade de sua origem, colocou a carroça dentro do templo. Amarrou-a com grossa corda com infindáveis nós de sorte que ninguém conseguia desatá-la. E assim ficou por muito tempo. Até que no ano 334 a.C. passou por lá Alexandre, o Grande. Curioso, foi ver os nós. Circulou ao redor. Não ficou refém dos nós da corda. Teve uma iluminação. Desembanhou a espada. Num golpe cortou a corda. Daí se derivou a conclusão de que uma ideia fora dos quadros convencionais – os nós – pode facilmente desatar os nós e resolver o problema.

O Brasil está amarrado a quatro nós górdios, sem que até hoje chegasse alguém que num corte libertasse o Brasil deles. Mas um dia ele irromperá.

O primeiro nó górdio é o etnocídio indígena. Eram cerca de 4 milhões. O extermínio os reduziu a 800 mil de hoje. O mais vergonhoso extermínio foi a decisão de Dom João VI em 13 de maio de 1808 de declarar uma guerra de exermínio contra os krenak (botocudos) do Vale do Rio Doce. Eram tidos indomesticáveis e por isso deveriam ser exterminados. Quase o foram. Alguns fugiram para dentro da mata. Eles se refizeram e hoje Ailton Krenak é um dos líderes maiores dos povos sobreviventes. A consequência: esses povos originários até hoje são discriminados como inferiores e suas terras com dificuldade são demarcadas e muitos deles são ainda assassinados.

O segundo nó górdio é o nosso passado colonial. Todo processo colonialista é violento: implica invadir terras, impor a língua, a política, a religião e desestruturar a cultura dos colonizados. A colônia criou duas instituições que se transformaram em estruturas mentais: a Casa Grande do senhor que tem o poder de vida e morte sobre os subordinados e a Senzala onde vivem os escravos e os peões sem qualquer direito. A consequência: sempre dependemos de fora, consideramos o que é estrangeiro melhor do que o nosso próprio produto. Deixamos surgir o sentimento de “vira-lata” sem autovalorização.

O terceiro nó górdio foi a escravidão. 4-5 milhões de africanos foram trazidos de África como escravos. Eram postos no pelourinho para serem vendidos como “peças” para servirem como trabalhadores no engenho ou serviçais nas cidades. Eram proibidos de constituir família. Os filhos logo que cresciam eram vendidos para longe e assim romper o laço de afeto entre a mãe e os filhos e filhas. Foram tratados com crueldade como a animais. Consequência: a falta de respeito aos outros, a discriminação e o ódio que grassa na sociedade contra os negros e a seus descendentes. Isso perdura até os dias de hoje. Jessé Souza em sua obra sociológica enfatiza que os descendentes da Casa Grande não apenas os mantém nas periferias mas os humilham e desprezam. Apenas o Governo Lula-Dilma fez alguma reparação para com eles, criando cotas nas universidades e nas escolas técnicas e uma universidade UNILAB em Redenção no Ceará.

O quarto nó górdio que obnubila a realidade brasileira é o patrimonialismo associado à corrupção. O patrimonialismo significa que as oligarquias consideram como privado o bem público, ocupam altos postos do aparelho do Estado, controlam as políticas públicas, entram em consórcio com empresas privadas para realizarem projetos do Estado, ganhando propinas pela mediação ou pelo superfaturamento das obras. Aí corre solta a corrupção que foi naturalizada. Somente nos últimos tempos pela Lava Jato os donos das grandes empresas e políticos dos mais altos escalões foram desmascarados e muitos deles postos na prisão. Esse nó górdio é o mais difícil de ser desatado pois se infiltrou em toda a sociedade como pertencendo ao negócio e ao nosso ser brasileiro.

Se o Brasil quiser construir seu próprio caminho, ganhar autonomia e contribuir para o devenir da nova fase planetária da Terra, deverá cortar estes quatro nós. Um governo com forte liderança e coragem e com sentido de nacionalidade poderá cortar esses nós, como condição de realizarmos o sonho brasileiro.

Não perdemos a esperança de que esse dia chegará.

Energias ponderosas estão impulsionando nesta direção.



Por Leonardo Boff, teólogo, escritor e professor universitário

domingo, 10 de setembro de 2017

OS FURACÕES PASSAM



Mensagem em nome de um brasileiro chamado Carlos André Montenegro, que mora e trabalha em Miami há dois anos, circula pela internet destacando as medidas tomadas pelo estado para evacuar a região sul da Flórida diante da chegada do furacão Irma.



São milhões de pessoas evacuadas por terra e por ar, com ordem nas estradas e companhias aéreas oferecendo passagens a preços módicos (98 dólares) para que o maior número possível de pessoas possa abandonar a região em ordem e com tranquilidade.



Além disso, hotéis que receberão por alguns dias essa quantidade impressionante de pessoas libera o wi-fi e a programação de tv a cabo, especialmente às voltadas para crianças, no sentido de que, a estada que poderia ser de terror transcorra da maneira mais agradável possível.



Ressalte-se que o estado oferece ainda, transporte gratuito para os que estão sem condições financeiras ou de saúde para se locomover.



A mensagem termina com o autor lembrando a tragédia de 2011 na serra do Rio de Janeiro, especialmente Teresópolis, com milhares de vítimas fatais, onde o povo foi praticamente abandonado à sua própria sorte e, hoje, sabe-se, até o dinheiro enviado para a reconstrução das casas foi desviado por autoridades corruptas e imorais.



Lembramos também, da tragédia dos vendavais (ciclones), aqui no Rio Grande do Sul, que destelharam milhares de casas e que tiveram como respostas de nossos empresários o aumento do preço da lona e dos materiais de construção.



Não há espaço para ingenuidade e sabemos que, certamente, o governo da Flórida também tem seus esqueletos no armário, mas, ao menos em tempos de tragédia parece haver entre as comunidades norte-americanas a esperança de que não serão esquecidos pelas autoridades.



Parece não ter sido isso que aconteceu em Nova Orleans com o furacão Katrina, mas...



Parece que, na hora das tragédias é que se conhece a verdadeira face das pessoas poderosas que podem auxiliar (ou não) os mais carentes. Não é na hora da campanha eleitoral, ou na demagogia de cada dia, mas, nessas horas é que a verdade se escancara.



O povo americano sofre anualmente com a temporada dos furacões, mas, talvez mais sofrido seja o povo brasileiro, livre de furacões, mas que sofre todos os dias os efeitos nefastos da ambição desmedida de uma das elites mais arcaicas e reacionárias do mundo.



Os furacões passam e os atingidos retornam aos seus lares.



Já as consequências da fome de poder, ganância e políticas públicas que esquecem dos mais fracos e que atingem milhões de brasileiros, não acabam e se cristalizam, numa temporada que alguns querem que não tenha fim.




Prof. Péricles







sábado, 9 de setembro de 2017

O ENIGMA GERALDO VANDRÉ


Desde 1985 Vitor Nuzzi se interessava pela trajetória do cantor e compositor Geraldo Vandré, o principal expoente da resistência musical à ditadura militar durante os anos 60 (na década seguinte, tal papel seria desempenhado por Chico Buarque).


Segundanista de Jornalismo, descobriu em 1985 o telefone do artista e disse estar querendo conversar com ele sobre um trabalho para a faculdade. Foi recebido no apartamento que Vandré ainda possui na rua Martins Fontes, próximo ao prédio que durante muitas décadas sediou o jornal O Estado de S. Paulo, na capital paulista. A conversa foi cordial, mas breve.


Quando Vandré se tornou septuagenário, em setembro de 2005, Nuzzi temeu que ele mergulhasse cada vez mais no esquecimento; decidiu, então, assumir como sua a tarefa de apresentá-lo às novas gerações.


Foi um trabalho longo e abrangente como bem poucas biografias brasileiras. Entrevistou mais de 100 pessoas (inclusive esta que vos escreve), garimpou informações em 51 livros e 29 jornais/revistas. Com isto, pôde reconstituir nos mais ínfimos detalhes a história do artista.


E a odisseia de Nuzzi, depois dos mesmos 10 anos que durou a descrita por Homero, teve final feliz, com o lançamento, no final do ano, de Geraldo Vandré: uma canção interrompida (Karup, 2015, 352 p.)


É um trabalho de fôlego e muito bem escrito; tem qualidade superior, na minha opinião, à das obras congêneres de biógrafos famosos como Fernando Moraes e Rui Castro. Quem não acompanhou a trajetória de Vandré, certamente se deslumbrará.


E mesmo os contemporâneos de sua trajetória ficarão conhecendo muita coisa nova.


Por exemplo, é inverossímil ao extremo que os responsáveis pelo FIC, com a espinha flexível que era marca registrada dos profissionais da Globo nos anos de chumbo, tivessem ousado guardarem para si as ameaças dos fardados, torcendo para que, espontaneamente, o júri não premiasse nem a Caminhando, nem a América, América, de César Roldão Vieira (outra que a caserna impugnara). Fala sério…


Quanto ao comportamento esquisito e errático de Vandré desde que voltou do exílio em 1973, todas as informações que Nuzzi levantou são conclusivas quanto ao fato de que Vandré não foi torturado antes de deixar o Brasil e dificilmente o terá sido na volta negociada para o País.


Estava em más condições psicológicas e com a saúde debilitada nos últimos tempos de exílio. Foi sequestrado discretamente pela ditadura no aeroporto e, um mês depois, a Globo o exibiu no Jornal Nacional como se estivesse desembarcando naquele instante.


Parece ter ficado 58 dias (antes e depois da entrevista ao JN) recebendo tratamento psiquiátrico.


A menos que algum militar, algum médico ou algum enfermeiro abra o bico, jamais saberemos o que aconteceu com Vandré enquanto esteve internado (rigorosamente isolado dos demais pacientes) numa clínica do bairro de Botafogo, RJ.


Em Aroeira, o narrador (Vandré) declara estar “escrevendo numa conta/ pra juntos a gente cobrar/ no dia que já vem vindo/ que este mundo vai mudar”. E alerta os marinheiros (os colonizadores portugueses) que está próxima “a volta do cipó de aroeira/ no lombo de quem mandou dar”.


Bonita é uma guarânia na qual um presumível guerrilheiro tenta explicar à sua amada que não a pode tomar naquele instante e (como poderá morrer seguindo o destino que escolheu) talvez ela só venha novamente a saber dele “se um dia encontrares alguém/ que te cante meus versos”.


Há outras. A mais explícita de todas, Terra plana, traz este desafio que o combatente lança a um militar: “Se um dia eu lhe enfrentar/ Não se assuste, capitão/ Só atiro pra matar/ E nunca maltrato não/ Na frente da minha mira/ Não há dor nem solidão/// E não faço por castigo/ Que a Deus cabe castigar/ E se não castiga ele/ Não quero eu o seu lugar/ Apenas atiro certo/ Na vida que é dirigida/ Pra minha vida atirar”.


A canção interrompida me fez cair a ficha: Vandré havia dado um duro danado para se tornar artista vitorioso e era exatamente isto que ele queria ser. Acreditava nos ideais da esquerda e era favorável à luta armada, mas nunca como causas às quais se pretendesse engajar como militante. Cansava de repetir que sua atuação não era partidária.


A sensibilidade de artista o levava a incluir tais fantasias em suas músicas, mas ele apenas se colocava imaginariamente no lugar dos revolucionários e dos guerrilheiros. Não queria ser uma coisa nem outra.


E lá se foi outra das fantasias que nos ajudavam a manter a sanidade durante aqueles anos terríveis! Ainda assim continuo lamentando —e muito!— que esse extraordinário artista tenha caído numa armadilha da História, acabando por ser destruído.


Nunca haverá desculpa para os que fizeram desabar tamanha tempestade em cima de um músico, apenas por ele ter composto uma canção que expressou o sentimento de todo um povo.


Como bem lembrou o Benito de Paula, “esse trapo, esse homem um dia foi um rei”.




Celso Lungaretti, jornalista e escritor, escreveu o livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial).



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

COMEMORAR O QUE?


A independência política do Brasil ocorreu após um processo dirigido pelas elites brasileiras.


Nesse processo, a maior preocupação das elites, não era com a independência propriamente dita, nem com a situação de seu povo menos favorecido. Ao contrário, a independência se fez sob uma ótica quase obsessiva de se manter a escravidão no país que então iria nascer.


Para atingir esse objetivo obsessivo, as elites apostaram todas suas fichas na figura do Príncipe Regente, D. Pedro, a ponto de fazer nascer na América latina uma monarquia, sistema político totalmente estranho ao cenário americano e decadente no restante do mundo.


Fez-se a monarquia e D. Pedro foi coroado imperador, tudo para manter a escravidão, na forma desumana de exploração da mão-de-obra africana. Para isso, o novo governo chegou a assumir um compromisso por escrito com a Inglaterra de que iria sim acabar com a escravidão, mas só no dia de “São Nunca”.


O Brasil nasceu como país já demarcando fortemente as mais perversas características de seu caráter: um estado fascista, explorador e assassino.


Tudo para suas elites, nada para seus desgraçados.


Desgraçados que foram sistemática e perversamente mortos ao longo dos anos com as torturas da escravidão, nos sertões miseráveis de Canudos, na região do Contestado.


Quando não pode matar como gostaria, o estado fascista e elitista brasileiro usou todos os recursos da mentira e dissimulação como na Revolta da Vacina ou na Revolta da Chibata, para manter sua autoridade acima de qualquer reivindicação popular.


A torpeza de caráter dos dirigentes políticos brasileiros sempre foi exposta e imposta vencendo com todos os recursos da fraude mais baixa em eleições mentirosas como as da República velha.


Nossa classe média que sempre esteve no degrau mais baixo, muito mais próximo dos miseráveis do que dos poderosos, sempre foi subserviente, dócil e mais que isso, uma autêntica defensora dos interesses de seus amos e senhores.


Foi ela, nossa classe média, que forçou Getúlio a apertar o gatilho daquela arma, que cerrou fileiras nas marchas com Deus pela Pátria e Liberdade, que apoiou a ditadura e agora, contribuiu decisivamente para o golpe jurídico-midiático-parlamentar que depôs uma presidenta legitimamente eleita.


Ao longo dos tempos no Brasil se forjou uma classe média déspota e reacionária, talvez a mais hipócrita do mundo.


Engana-se quem pensa que todos nós somos brasileiros no sentido de igualdade. Não somos iguais e o Estado não se preocupa com todos. Somos como que reféns num gigantesco campo de concentração onde os senhores não nos lançam nas fornalhas, mas, exploram o trabalho e o talento, sugam a juventude e depois lançam os restos ao lixo de uma aposentadoria imoral.


O Estado Brasileiro não é brasileiro no sentido dos que nascem no Brasil, mas existe, serve e preocupa-se apenas e tão somente com suas elites e senhores e vende sistematicamente as riquezas do país a preço de bananas, e com isso, ao mesmo tempo que se delapida o país, fortalece-se a riqueza dos que já são ricos.


Aqui quem é nacionalista é mal visto e rotulado de subversivo e até é, realmente, tendo em vista que a ordem vigente é do entreguismo.


Por tudo isso, é de se perguntar, comemorar o que em 7 de setembro?





Prof. Péricles