
Houve um tempo, no Brasil e no mundo, em que todas as portas para a participação política estavam fechadas.
Um tempo em que se dizia amém antes mesmo da prece terminar e que toda a indignação, todo questionamento era proibido.
Tempo de guerras injustificáveis como a do Vietnã e de primaveras, como a de Praga.
Anos duros em que qualquer participação política era crime, a censura dava a última palavra e oposição apenas consentida, num verdadeiro faz-de-conta.
Nessa era de trevas, os inquietos e inconformados, especialmente a juventude, talvez pela natural chama ardente da idade, os intelectuais, operários, e o meio artístico, que quisessem protestar ou denunciar, tinham que ser criativos e buscar formas de fazê-lo sem perder a liberdade ou mesmo, a vida.
Então, o estilo de vida, o fazer e a forma de fazer determinadas coisas, tornaram-se por si mesmas, protestos e gritos sem sons.
Nesses tempos rebeldes, em especial a década de 60, 70 e parte da 80, os cabelos compridos, a roupa desbotada, o ritmo rebelde do rock e das motos turbinadas e o excesso de velocidade, assim como o consumo de drogas, assumiram ares de rebeldia e protesto, e, com o tempo, ocuparam um espaço na mitologia da juventude, assumindo contornos de estilo de vida.
Algumas drogas marcaram época como a maconha (a mais comum entre os brasileiros), morfina (consumida principalmente nos Estados Unidos e Europa) e o ácido lisérgico, o LSD. Este último tinha, inclusive, defensores públicos de sua liberação como agente facilitador para a compreensão de outras dimensões da existência, como o peyote seria entre os índios mexicanos.
Muitos ídolos desses tempos tiveram suas vidas ceifadas por esse modo de viver e até hoje ocupam o panteão dos heróis “imortais”: James Dean,(morto em 30/09/1955 em acidente de carro por excesso de velocidade), Marilin Monroe (morta em 05/08/1962 por ingestão de várias drogas), Jimi Hendrix (em 18/09/1970 por ingestão de comprimidos para dormir), Janis Joplin (03/10/1970 por overdose de heroína), Jim Morrison (vocalista da Banda The Doors em 03/07/71 na banheira de seu apartamento por overdose de álcool e outras drogas) e muitos outros.
Todos eles jovens, todos eles rebeldes, viraram estrelas de uma geração amordaçada, que vivia perigosamente, raspando no guard-rail da vida, mergulhada no álcool e namorando com a morte.
Mas, a vida é uma constante evolução, e o mundo não para sua rotação por nenhuma de nossas dores.
Novos tempos vieram. A democracia sobreviveu à tirania no Brasil, na Argentina, no Chile e em outros países. As guerras injustificáveis como as do Vietnã tornaram-se caras demais e acabaram, o socialismo real e a União Sovética entraram em declínio e acabaram, e, apesar dos grilhões, novas formas de luta acompanhadas de novas tecnologias surgiram.
O caráter e a função das drogas também se alteraram.
Hoje o uso abusivo de drogas lícitas e ilícitas não indica qualquer tipo de mensagem política e é fonte de verdadeira epidemia.
Ao contrário de representar qualquer embate pela liberdade o uso de drogas está associado à escravidão, pois a liberdade é impossível quando se é dependente.
A droga perdeu seu charme. Perdeu seu mito. A droga perdeu a graça.
Entretanto nem todas as cabeças assumiram essa nova mentalidade.
Ainda existem ídolos que acham cult viver no limite do suicídio, ser considerado louco e morrer na banheira, afogado no próprio vômito.
Se é verdade que as novas gerações precisam urgentemente de ídolos, não é menos verdade que precisam de ídolos sadios. Que tragam com seu carisma a força da vida e da juventude a serviço dos ideais maiores.
Chega de cultivar o doentio.
Temos que ter clareza que morrer chapado é coisa de otário. Ser encontrando num apartamento sangrando por dar chute em parede é burrice.
Negar seu talento à seus fãns por um crise de dor de cotovelo, não é bonito, é mesquinho.
Chega de perder gente talentosa, porém, manhosa.
Basta de cultivar ídolos de pés de barro.
Prof. Péricles